Expresso

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Sobre os Personagens

28/03/2011 às 18:48:35

Expresso

Bem, achei melhor apresentar o elenco básico da série. Como estou evitando mostrar páginas, fiz esses pequenos desenhos breves e velozes para apresentar um pouco os personagens. Não liguem, prometo trazer algo melhor acabado na próxima vez. Esses foram desenhos um pouco mais rascunhados a lápis, convertidos em arte-final via computador – e aqui quis energia, ao invés de acabamento. Mas como é raro eu colocar meus personagens com tamanha clareza de detalhes no ar, ei-los. 

Antes vale a pena fazer alguns comentários. Quando ordenei o universo de Expresso!, minha primeira intenção era fazer o material ser ambientado na Europa. Adriano, na versão do início da década, era um brasileiro em território estrangeiro (na França, mais especificamente). Ele teria como parceiros de aventuras Suzette, a filha da dona de uma pousada que ele ajudou a salvar – algo meio complexo de explicar aqui e também inútil, já que essa linha de trama foi completamente desconsiderada – mas de sua gênese como personagem falarei mais adiante; o conde Gaston de Montépin, que só é conde no papel depois da queda do governo de Luís Napoleão, mas que é um grande empresário e mecenas de Adriano; e Agoro, um gigantesco negro de mais de dois metros de altura, mordomo, guarda-costas e porrador a serviço do conde. Tudo redondinho. Com o tempo, alguns personagens se juntariam ao bando, mas a espinha dorsal da série seriam esses quatro. 

O que fez com que tudo mudasse tanto? Bem, foi um processo que surgiu quando eu decidi aumentar a percepção de Adriano como brasileiro – eu sentia que era apenas um elemento cosmético na história; tanto fazia se ele fosse brasileiro ou francês. Por isso mesmo, ele deveria começar sua jornada aqui antes de ir para a França, e encontrar paulatinamente Suzette, Gaston, etc. Só que a lógica para levá-lo a Europa acabou gerando toda uma história que foi se expandindo, expandindo, e expandindo. Embora por uma questão estrutural de roteiro ele ainda tenha que ir para a França a certa altura do campeonato (e hoje eu sei que não para sempre), a idéia de fazer de nosso país sua base de operações foi crescendo continuamente. E com isso, também foi crescendo um elemento acessório ao texto: o Clube dos Jovens Inventores. Isso tudo e a pesquisa histórica foram determinantes e o que deveria ser a primeira fase da série acabou ditando todo o tom do universo dos personagens. 

Os ajustes para realocar personagens fizeram que Gaston perdesse peso e se tornasse praticamente um coadjuvante. Claro, houve como inseri-lo logicamente no novo contexto, e colocar uma função narrativa para o personagem, mas não havia mais como fazê-lo parte do grupo dos protagonistas – ele deixara de acrescentar. E sem Gaston, Agoro também não fazia muito sentido. 

E gradualmente a construção de um roteiro fez com que o novo elenco surgisse naturalmente e definisse de vez o time que forma a atual espinha dorsal da série. É curioso pensar o que seria Expresso! se eu soltasse os personagens oito, dez, anos atrás e o que a série é hoje. Mas as criações são assim mesmo – a partir de certo ponto, elas se conduzem sozinhas. E sinceramente, isso é ótimo.

ExpressoADRIANO MONSERRAT: Isso, não “Montserrat” – é Monserrat mesmo, para que eu deixe bem claro que ele NÃO É a versão de uma terra alternativa do personagem de Lauro Corona em Direito de Amar. Na verdade, eu tinha me esquecido do próprio nome desse personagem. Eu me lembrava do Barão de Montserrat da novela, não do galã (galãs nunca são personagens marcantes), e batizei o nome do personagem de Adriano, acreditem, como uma homenagem a um dos meus dois ou três filmes favoritos de todos os tempos, Porco Rosso de Hayao Miyazaki (caso ninguém se lembre, era o nome do hotel aonde se reuniam todos os piratas aéreos). Nem me dei conta de que mentalmente juntava dois mais dois até ser tarde demais na minha cabeça. Posso ainda ter que mudar o sobrenome do personagem se der algum problema, mas por via das dúvidas, tirei o “t” depois do “mon”. 

Ah, sobre o personagem… bem, ele é um garoto inventor que foi estudar na França, levado sob permissão dos pais – uma família de coronéis do café da região do Vale do Paraíba (área que cobre parte dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, mas prefiro deixar a localização exata para a imaginação dos leitores). Para a surpresa dos pais, ele voltou como um “engenheiro diferencial” – o que nos termos da história, pode significar qualquer coisa: a palavra de ordem é ciência selvagem, aonde os limites não são claros e qualquer coisa pode sair da cartola. Isso não dá muito certo – e obviamente ele bate de frente com o lugar aonde vive: um país agrário, aonde ciência é malvista, boa parte das pessoas são ignorantes – e políticos, militares e religiosos estão firmemente unidos para que tudo permaneça assim. 

Claro que ele tem uma boa dose de conhecimento científico e inventividade – eu diria que ele é parte “detetive científico”, parte personagem de ação, com um quê daquela capacidade de fazer qualquer coisa com poucos recursos que marcou personagens como o bom e velho McGyver (leia-se, de um balde de limões e dois caixotes de madeira o nosso protagonista consegue construir uma máquina perigosa contra seus inimigos) Mas ele tem uma sombra: o fato dele ser filho e herdeiro de um coronelzão de interior é uma marca que pode ser percebida até mesmo quando ele perde a paciência com tudo e com todos – algo que pode ser tanto foco de comédia quanto drama; ao contrário do que possa parecer, ele admira e respeita o próprio pai, mas não quer se tornar como ele. E ele sabe que esse legado é parte do problema que ele tanto precisa enfrentar.

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SUZANNE “SUZETTE” MONTOLIOU: É difícil explicar antes de apresentar a personagem propriamente dita, mas sem ela, o Adriano não funciona direito. Quando a criei, ela devia ter uns quatorze, quinze anos – uma moça, em termos da época. Mas hoje, eu a desenho como uma menina mesmo – por um motivo prático: quanto mais jovens, mais curtas as saias, e como essa é uma história aonde os personagens correm e saltam o tempo todo, ficava muito complicado desenhar uma moça feita com saias até os tornozelos em cenas de corrida. Desenhar os personagens mais jovens foi uma solução prática, e reduzir a idade de um foi reduzir a idade de todos. Hoje me alegro por essa decisão; os personagens se tornaram divertidos de desenhar. 

Curiosamente, ela foi talvez a personagem que menos mudou desde que foi criada: eu costumo dizer brincando que Suzette poderia ser protagonista de seu próprio desenho animado japonês para meninas nos anos 70 – mas foi arremessada em um desenho para garotos aonde eles constroem máquinas enormes e as usam como armas uns contra os outros… e gostou disso. Não gostaria de fazer que ela caísse no clichê nipônico da Tsundere (a garota que rosna, rosna, rosna, mas tanto rosnado esconde uma poça de melado).

Originalmente, ela era uma garota francesa mais “comum”, mas a necessidade de fazer a personagem parte de uma série ambientada essencialmente aqui Brasil a fez ser transformada na filha de uma preceptora francesa, criada em uma grande fazenda no sul da Bahia (por pouco ela não virou filha de uma preceptora alemã, o que era mais comum ainda do que a presença de preceptoras francesas em grandes fazendas; seria perfeito, na verdade. No entanto, a perspectiva de transformá-la numa Susanna ou similar com sobrenome germânico não era uma boa idéia com a lembrança de uma certa srta. Richtoffen na mídia). Com o tempo... ah, vocês vão descobrir como ela se junta ao bando. Não chega a ser exatamente épico... 

O que conta é que ela é importante porque Adriano, durante seu período de faculdade, perdeu de vez boa parte de seu traquejo social em meio a universitários ferozes que não iam muito com a cara de um fedelho no ambiente. Ele teve pouco contato com gente de sua idade e hoje tem desconforto em situações sociais simples – isso quando não perde a paciência. Não é um cavalheiro. Por sua vez, o fato de ser filha de quem é faz com que ela saiba como lidar corretamente com as pessoas e apertar o botão de liga e desliga social no momento certo. Ela é a garota que sabe latim o suficiente para acompanhar a missa da igreja, fala francês, toca piano, sabe se comportar, mas dependendo da situação pode muito bem jogar tudo para o alto para se impôr. É a única que pode passar uma descompostura no Adriano sem ouvir uma resposta (muito) malcriada. Oficialmente, é sua amanuense – e realmente ela precisava de uma função mais prática nesse bando.

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ALDEIDO CARBONE: Esse surgiu de uma necessidade prática de roteiro – que Adriano tivesse um amigo de sua faixa de idade mais ou menos. É uma necessidade natural – ele precisa de personagens com que falar, que possa discutir assuntos mais próximos do que ele faz. Com o contexto do Clube dos Jovens Inventores, ficou fácil arrumar uma solução: Carbone é o responsável em avaliar se Adriano é apto a entrar na agremiação – e acaba ficando no país. 

Para não ficarmos com dois jovens inventores ultra-capazes no grupo principal de personagens, tive uma mãozinha do próprio background da série: de acordo com as regras do Clube, os filhos de um membro podem herdar sua cadeira caso dêem prosseguimento às pesquisas do pai ou sigam seu legado na ciência. Em miúdos, Carbone, assim como seus quatro outros irmãos, nunca criaram nada de inovador na vida; o seu pai, Diossido Carbone, foi desenvolvedor de tecnologia de foguetes (e acreditem, nessa época há havia interesse sobre o assunto e até a construção dos primeiros túneis de vento), mas não fez nada além disso; só entrou no clube por ter criado seus projéteis antes dos quinze anos. O irmão mais velho de Carbone é o atual presidente do clube e parece mais ligado à política interna da organização do que à ciência em si. Para ele, estar ao lado de Adriano se tornou a chance de fazer alguma coisa – e até crescer no processo. 

Carbone é italiano, e aprendeu português durante a viagem de navio graças ao método Maledetto Ruy Barbosa de Português para Italianos (acham mesmo que eu iria perder a oportunidade de soltar uma piada dessas?). ao lado de Adriano, eu o vejo com uma dinâmica parecida com os personagens de fumetti – dentro daquela estrutura de duplas como Tex e Carson, Zagor e Chico, Dylan Dog e Groucho e vários outros: como os dois estão no mesmo métier, um pode falar com o outro sobre o que está fazendo e esperar que ele entenda. É um procedimento que costuma funcionar. 

Mas eu espero que dependendo dos rumos da história, ele cresça naturalmente. E ele não vai ser o único personagem italiano do lado dos mocinhos a entrar em Expresso. A Europa vai ser importante para o futuro da série, mas o principal cenário sempre vai ser o Brasil.

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DOMINGOS: Basicamente… é o jagunço do patrãozinho Adriano – que sabe disso e detesta a idéia, mas não há muito o que fazer – ele precisa de um guarda-costas de confiança. Ele é um veterano da revolta federalista no Rio Grande do Sul, na qual lutou ainda bem adolescente, mas isso deixou marcas: ele chegou a lutar pelos dois lados e seu desencanto com ambos o levou a usar um lenço negro, em rejeição a tudo o que viu durante aqueles anos.
 
Curiosamente esse personagem originalmente era para ser nada mais nada menos do que Plácido de Castro, o homem que libertou o Acre das mãos bolivianas – e na verdade das mãos americanas. Os bolivianos perderam o Acre para Galvez e, incompetentes, precisaram apelar para o Brasil (atrelado graças a um acordo feito para proteger os seringueiros brasileiros que trabalhavam na região) para tirar o sujeito do poder. Mas eles ainda se ressentiam e pretendiam fazer um acordo de Chartered Territory, nos moldes das colônias africanas, entre empresas gringas e seu país. Essencialmente essas empresas passariam a administrar a região e se quisessem, poderiam remover os brasileiros – e colocar o exército de seu país para garantir seus interesses; é assim que o esquema funciona. Os brasileiros e bolivianos que residiam na região se uniram, sob a liderança de Castro, e tomaram o local na marra – acabando por gerar uma intervenção do Brasil que tomou o país dos bolivianos. Claro, sempre vai ter quem tome as dores dos nossos vizinhos sulamericanos, mas lembrem-se do precedente: se os bolivianos tivessem vencido, provavelmente teríamos uma Porto Rico – ou pior, um Alasca ou Havaí – em meio à selva amazônica. 

Como eu não vou dar muitos detalhes a respeito de um arco que ainda vai acontecer, vou apenas adiantar que a idéia original era pegar um vácuo cronológico: Plácido em 1901 era ainda um dos homens que seguiu Galvez, mas não era o líder que viria a ser. Só que duas coisas me fizeram mudar de planos. 

A primeira é o fato de eu não ter nenhuma vontade de transformar Expresso! em “O Jovem Indiana Jones”, enfiando personalidades históricas para educar as criancinhas, e tornando os personagens insuportavelmente chatos. A segunda foi que o Plácido da história foi tomando vida própria, se tornando praticamente outro personagem e eu acabei gostando dele. Então o rebatizei, reajustei seu histórico (apesar dele preservar similaridades com o Plácido na biografia, como ter lutado adolescente e mudado de lado em pleno conflito). Essa também é uma oportunidade de explorar um assunto que a história oficial gosta de minimizar quando não pode varrer por baixo do tapete: o Brasil era um verdadeiro barril de pólvora naquela época. O discurso de “país cordial” é completamente furado. Na verdade, se olharmos todos os conflitos que se passaram no Brasil em toda a nossa história, apenas três dias no calendário não marcam o aniversário de uma ou mais batalhas (uma fonte particularmente preciosa para mim nesse sentido é o Dicionário das Batalhas Brasileiras, de Hernâni Donato, publicado pela Ibrasa). Em miúdos, Domingos é o homem de armas que encontra uma causa para empunhá-las. Ah, sobre a arma enorme em sua mão… vocês não querem que eu entregue tudo, querem? 

Bom, agora chega. Vamos atualizar mais regularmente esse blog daqui para a frente.


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